A pele que habito

A pele que habito

sábado, 24 de dezembro de 2016

Do sentimento de não estar de todo...


Sempre serei como um menino para muitas coisas, mas um desses meninos que, desde o começo, carregam em si o adulto, de maneira que, quando o monstrinho chega verdadeiramente a adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino e nel mezzo del cammin dá-se uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Julio Cortázar in ‘Valise de Cronópio’

 

 

Quatro mundos. Quatro gerações. Quatro mulheres. Os mesmos olhos.

Par de olhos castanho-avelã.

Pequenos. Expressivos. Argutos. ‘Estranhos’.

Transmitidos em linha direta de mãe para filha, de avó para neta, de bisavó para bisneta.

Pequenininha, Khadija, Elisete, Danielli.

Toda uma dinastia de olhos de pomba, como diria meu avô, se ainda fosse vivo.

Os mesmos olhos no espelho, olhares diferentes na vida.

Genética e metafísica.

A verdade é que em alguns dias me sinto o velho no barco, de ‘A Terceira Margem do Rio’. Ao contrário dele, porém, vivo e visito os meus, participo. Depois embarco e sigo em mais idas e vindas, infinitamente.  Como Cortázar, eu estou lá, mas não de todo. Parte de mim segue mata virgem intocada, outra parte vive de intercâmbios, outra parte eu dou de graça, sem receber pagamento e sem afetos gratos, apenas doo, como mandato, vocação, minha parte do trabalho.

Segundo meu contista predileto, essa justaposição que se manifesta no sentimento peculiar de não pertencer de todo em qualquer das teias que a vida nos arma, verdadeiras arapucas em que somos ao mesmo tempo caça e caçador, é característica de um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da vida adulta. Em seu ensaio, homônimo deste texto, comenta que muitas vezes era maior que o cavalo que montava, mas que era feliz em seu inferno e escrevia, sempre um pouco para lá ou para cá de onde devia estar.

“Desde muito pequeno assumi, com os dentes cerrados, essa condição que me separava de meus amigos e por outro lado os atraía para o raro, o diferente, o que metia o dedo no ventilador.”

Para o escritor argentino, esse homem gigantesco e universal, se escreve justamente por não se ‘estar lá’ ou por se ‘estar a meias’. A escrita seria uma espécie de aceitação do desafio do ‘estranhamento’, de cada vez em que esse ‘não pertencimento’ se revela de forma aguda. O texto ou poema seria uma espécie de petrificação deste ‘estranhamento’ – uma materialização do que ‘o poeta vê ou sente em lugar de, ou ao lado de, ou por debaixo de, ou ao contrário de’, esse de evocando aquilo que os demais veem tal como acreditam que algo de fato seja, sem crítica e sem deslocamentos de perspectiva. Daí o fato de não ser sempre compreendido, aceito, acolhido: O louco.

Cortázar escreve esse ensaio quase que numa defesa do insólito contido em suas obras: “Há como um acordo de cavalheiros entre a circunstância e os circunstantes: tu não me tiras de meus costumes e eu não te ando esgravatando com um palito.” “Para que voltar ao fato sabido de que quanto mais se assemelha um livro a um cachimbo de ópio mais satisfeito fica o chinês que o fuma, disposto no máximo a discutir a qualidade do ópio mas não seus efeitos letárgicos.”

Mudam-se as causas e as razões, ficam os ‘estranhamentos’.  Ao considerar o homem de seu tempo um ‘ingênuo realista’ ao invés de um ‘realista ingênuo’, atribui a uma crença cega na informação filosófica e histórica a culpa por uma vida ‘vê lá se crê’, uma inabilidade para discussão metafísica que o aprisionava a uma visão tolerável, mas incompleta do mundo.

Para o autor de contos como ‘Casa Tomada’, ‘Las babas del diablo’, ‘Continuidad de los parques’, ‘Carta a una señorita en Paris’ e ‘El outro cielo’, numa discussão que faz questão de considerar menos da lógica que da semântica, os egoístas, ou os que optam por manter a lucidez, não se obrigando à responsabilidade ante o desafio do ‘estranhamento’, não servem para escrever poesia, prosa ou filosofia.

Falecido no já emblemático ano de ‘1984’, Cortázar não conheceu o insólito do mundo virtual, ou da era globalizada, ou da geração politicamente correta. Independentemente de suas aspirações ou crenças políticas, frutos de uma América Latina sempre filha do fantástico com o barroco e mãe do maravilhoso, logo repleta de ‘entre-mundos’ a se considerar, talvez o maior de todos os ‘estranhamentos’ a que precisaria dar conta, seria o da ‘falta de estranhamento’ da maioria, ou talvez de um acovardamento, diante de uma realidade repleta de fissuras aparentes.

Este ano houve de tudo.

Tragédias, comédias, dramas: pessoais e universais.

Morreram muitos seres humanos relevantes, entre eles meu caro Dr.Shedd, cuja inteligência e exemplo de santidade são insubstituíveis. Alguns deixaram obras de adeus pungentes, como David Bowie e seu belíssimo ‘Black Star’.

Por aqui, roubou-se a Petrobrás e a dignidade do povo brasileiro, a pouca que ainda existia, guardada a sete chaves no cofre de uma confiança juvenil na tal da ‘nossa democracia’. Foram-se as aposentadorias, ficaram-se os dedos, magros. A pseudo-educação agoniza em toadas marxistas de araque, na voz de professores acometidos da lepra do funcionalismo público e de alunos semi-analfabetos, ou na incompetência de ministros que nunca pisaram numa sala de aula de escola básica. Sofremos o golpe do golpe do golpe e quem tinha tanta certeza ao ir para as ruas, de vermelho ou de verde-amarelo, agora não sabe mais de nada e ouve rádio tentando entender as votações feitas na calada da noite, enquanto se chora corpos jovens esmagados em destroços. 

Nas conversas da vida, descubro entre surpresa e enternecida que ainda existem monarquistas no Brasil, esperanças políticas de qualquer ordem sempre me soam sonho de criança. Desconfio. De tudo e de todos. Dos mestres e dos messias anunciados. Sou rebelde por natureza. Não vejo bondade em quem luta por poder. Vejo e ouço denúncias de conspirações por todo lado. O colapso declarado que se aproxima talvez de fato exista, com ou sem ele precisamos continuar vivendo.

De forma discreta sou aliciada por seitas judaicas, cristãs e pagãs, algumas políticas, outra religiosas. Não me sinto política, eventualmente me sinto religiosa. O paradoxo se encontra no fato de que a seita separa e a religião religa. Tudo que nos afasta do amor e da vida não pode provir da luz divina. Deus é amor! Os que me acusam de simplismo, loucura ou de falta de lógica me elogiam. Jesus era simples, louco e ilógico. Que amor é esse que torna alguém capaz de dar a própria vida por seus amigos? E morte de cruz...

No ‘entre-lugar’ em que vivo, aceito que homens podem ser tão obcecados quanto mulheres podem ser histéricas e que homens podem ser tão histéricos  quanto mulheres podem ser obcecadas. No ‘entre-lugar’ sempre se enxerga mais e melhor. Revejo mil vezes minhas concepções de amor. Ainda estou mais para a esquerda ou mais para a direita, mais para cima ou mais para baixo. Problema de cardápio? Talvez o ingrediente errado no prato seja eu, sempre eu, talvez não. Talvez para ingredientes exóticos exijam-se pratos sofisticados, talvez não, ‘Ratatouille’ é feito basicamente de berinjela e abobrinha e rima perfeitamente com ervas de Provence. Guardo o pouco romance que ainda me resta, protegido num relicário branco, feito de diamantes, tule e açafrão, escondo no mais profundo do peito e teimo na minha característica e resoluta altivez em “trazer à memória o que me pode dar esperança.”

Perco amigos, ganho amigos. Descubro que não tolero invasões e me defendo. Descubro que às vezes a maior prova de lealdade é abandonar e deixar a pessoa aprender a existir. Paro de culpar minha infância nômade por minha opção pelo rio. Não existem culpados, existe como eu vivo: o barco no rio sou eu, sou eu no barco do rio, eu sou o rio.

Cuido do meu pai doente, eu o vejo frágil, menorzinho e com medo da solidão. As esperanças de uma vida titubeiam, mas a fé resiste. “Estou indo orar por vocês, pecadoras...” e ri antes de sair. A menina em mim se encolhe, enquanto a mulher se expande, na proporção em que as manchas da velhice se multiplicam em suas mãos brancas, aquelas mãos grandes que eu segurava até dormir em noite de pesadelo. “Pai, fica mais um pouco.” E ele fica.

Estudar Virgínia Woolf me encanta e me enfurece. É tanta coisa importante e linda para se aprender no tempo tão curto de uma vida humana, já vivi metade e os anos passam sem pausa para sábados.

Existe tanta beleza na Arte, na natureza, na Literatura e na vida. Existe tanta feiura.

Extenuada dessas discussões de gênero vazias e improdutivas.

Mulheres escrevem. Mulheres criam: filhos e obras de arte. Mulheres vão para guerra. Mulheres lideram e governam. Mulheres pensam, amam e fazem sexo. Mulheres nascem, crescem e morrem. Mulheres formam famílias. Mulheres cozinham e cuidam da casa. Mulheres bordam e fiam. Mulheres fazem sermões. Mulheres existem. Homens também.  Mulheres são boas e más. Mulheres são inteligentes ou não. Mulheres agridem ou são agredidas. Mulheres erram e acertam. Homens também. Importa é proteger o mais fraco do mais forte insano que o assedia. Inclui-se fetos. Isso não tem a ver com sexo, tem a ver com justiça e com honra. Essa palavra quase datada.

Oro menos nesses dias.

Não por falta de fé ou crise espiritual, mas porque finalmente aprendi a pedir menos e a ser mais grata. Existe tanto a agradecer e existem tão poucos corações agradecidos. Sabemos tão pouco sobre Deus e a nossa vaidade nos impede de aprender mais. Deus não está em caixas. Deus não é homem. Como diria Leibniz, o conceito de bondade divina não é o conceito de bondade humana. Deus conhece todas as ideias possíveis e suas relações, sabe de cada causa e consequência, sabe de todas as Daniellis possíveis e, sendo otimista como o filósofo alemão, considerado o homem do barroco, o que vivemos é, dentre todas as possibilidades e amálgamas diretos dessas possibilidades, o ‘melhor mundo possível’. Borges desenvolve esse conceito em ‘O jardim das veredas que se bifurcam’ e problematiza ao incluir nessas ideias possíveis a variável da escolha humana. Talvez sejamos todas as possibilidades. Talvez existamos nessas versões infinitas de nós mesmos, pelo menos na mente de Deus.

O Natal deste ano chega triste. Ninguém tem conseguido muito se obrigar a pensar na benção do nascimento do menino Jesus e o que ele representa. O cristianismo segue dormente nos países livres do ocidente, mas ferve nos países perseguidos. Acostumados ao consumismo do período, a multidão de desempregados amplifica a sensação de impotência diante do caos instalado no Brasil e em nossas vidas pequenas. Foram tantas as lutas, dores e privações deste ano. Calejados, muitos substituíram a esperança do Ano Novo por um medo do que está por vir.

Alepo com seus mortos, a Síria que se espalha pelos quatro cantos do mundo, levando novas de desesperança. Igrejas vazias. Igrejas cheias e queimadas. Meninas sendo vendidas como escravas sexuais pelo Estado Islâmico, leiloadas pela internet, crianças...

O que já foi meu maior desejo virou pó de cometa diante da força do tempo e das circunstâncias. O que antes me entristecia, hoje é alívio. Sou quase um Brás Cubas, aliviado por não transmitir à geração seguinte a miséria humana. Quantos ‘nãos’ de Deus acabam por ser razão de gratos louvores? Hoje quando brinco com bebês, olho bem fundo em seus olhos e lamento sua sorte, oro por dentro pedindo misericórdia, pelo menos por aquele. Sim, muitas vezes acabo achando que o purgatório é aqui. Ainda assim, acordo animada todo dia, brinco com meus gatos, cuido das plantas, leio, ouço música, faço tricô e agora croché, cozinho, converso, abraço, beijo, tiro fotos, estudo, trabalho, vou à feira e ao cinema, gosto do meu cabelo e do meu perfume, compro enfeites de Natal, escrevo, escrevo cada vez mais. Precisamos continuar vivendo e cumprir nossa jornada com galhardia, cuidando da nossa família ou daqueles que nos foi dado proteger.

Se é para falar do assunto:

A palavra ‘família’ é derivada do latim famulus, que significa escravo doméstico. Conceito derivado da Roma antiga, para designar um novo grupo social que surgiu entre tribos latinas, quando se introduziu a agricultura e a escravidão legalizada. Milênios depois, família transformou-se em sinônimo de laços consanguíneos ou vínculos parentais. Se na infância, viver em família é sinônimo de sobrevivência, na vida adulta passa a ser escolha pessoal. Numa transposição conceitual, eu diria que o que define família é uma inclinação específica, involuntária e mais do âmbito do afeto, que por razões nem sempre racionais, embora sempre da ordem da honra, nos leva a uma entrega consciente. Família são as pessoas que você elege para servir em completa e sagrada vassalagem. Família é o único lugar em que um ser humano é rei e escravo simultaneamente. Não gerei família, mas fui gerada por uma. Talvez um dos meus maiores fatores de ‘estranhamento’ seja esse complexo de vira-lata que nos torna mais íntimos de estranhos e mais orgulhosos de ancestralidades das mais remotas do que daqueles que limparam nossas bundas e nos permitiram crescer. Não, amigo não é família que a gente escolhe. Amigo é amigo (essa coisa ímpar, rara, sofrida e maravilhosa). Família é família (essa coisa ímpar, rara, sofrida e maravilhosa). Amor é amor (essa coisa ímpar, rara, sofrida e maravilhosa).

Olho para os ocos do mundo e tento ainda destacar o que de belo existe.

Não porque eu seja alguma força da natureza, excepcional, admirável ou virtuosa. Apenas porque preciso limpar o ar que enche meus pulmões, tirar dele esse metal pesado que nos polui a mente e emporcalha a alma. Encontrar a beleza é a única possibilidade de sobreviver nessa nossa jornada cada vez mais árida, para a qual temos cada vez menos recursos.

É muito provável que eu chegue às portas do Reino, nua, faminta, ferida e esgotada, mas pela fé, chegarei. Sei que nada me prepara para o que lá verei, porque nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano, o que Deus tem preparado para os que O amam, mas eu creio no Senhor dessa promessa com todas as forças do meu coração inconstante.

Encerro esse texto ‘estranho’, me despedindo desse ano ‘estranho’, com um poema ‘estranho’, escrito em um dos meus processos de ‘estranhamento’. A você, leitor ‘estranho’, desejo um Natal de Luz verdadeira e alívio de dores e um 2017 mais ameno.

 

 

 

As Asas de Sabrina

 

Se no silêncio houvesse espaço

Poderia armazenar as lágrimas,

Os grãos de areia e os vagalumes...

Haveria então alguma esperança viva

Para os cavaleiros de além-mar.

 

São brancas as saias e as aias das damas

Que se perdem nas fogueiras santas,

Como borboletas negras atordoadas:

Ophelias, Judiths, Marias,

Todas sem par.

 

No coração da Manuela velha

Existia um cofre e um tesouro putrefato

Que cheirava a Circe, Nêmesis e Lorelai.

 

Existe uma leveza naquele sussurro.

Um apreço de folha solta pululante.

Uma escolha, uma possibilidade.

Aleia florida ao sol.

E se em vez de algemas fossem asas?

Sabrina canta e voa

Em aventura sorridente.

Seu beijo é de prata derretida, incandescente.

Sua travessura é perene.

Segue curando, emendando as falas.

 

Com-preensão.

Apreender com. Aprender o tom.

Canta-se uma vida inteira sem saber a melodia

Ou voa-se com asas de fadas abertas,

Rápidas como as de um beija-flor carnívoro

Que não suga néctar, arranca pétalas.

Morre-se no frio de um abandono febril.

Impensado.

Saudade que segue o esquartejamento.

Voa, bela Sabrina.

Voa enquanto o mel não lhe cola as asas.

Livra-te de morrer na cera derretida

Das velas da comunhão.