A pele que habito

A pele que habito

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Quando as mulheres podem falar? Voz, lugar, memória e sabedoria entre a igreja e o mundo

 Alguns retratos antigos parecem explicar séculos inteiros. Em vários deles pode-se observar homens em

pé, mulheres sentadas. Eles discursam, se expressam, desbravam e esbravejam, pregam e influenciam. Elas

observam. Eles assinam seus nomes em atas, poemas, tratados, sermões e manifestos. Elas carregam crianças,

organizam a comunidade doméstica, copiam receitas, decoram orações, guardam cartas e guardam lutos. Ainda

assim, basta cavar um pouco mais fundo a superfície ordenada da história para perceber algo no mínimo

inusitado: As mulheres nunca estiveram realmente caladas. O mundo sempre foi atravessado por suas vozes e

por seus corpos e mesmo quando foram silenciadas, seu silêncio se fez ensurdecedor. Variou-se, é claro, no

decorrer dos tempos, a disposição coletiva para legitimar essa fala feminina, mas nada nunca foi capaz de mudar

seu timbre - de mulher, vivo e sobrevivente.

Uma das maiores ironias da civilização ocidental jaz no fato dos homens terem frequentemente

governado o espaço público, muitas vezes em detrimento das mulheres, enquanto eram emocional, intelectual e

espiritualmente formados por elas. Mães, amas, irmãs, avós, tias, primas, amigas, terapeutas, enfermeiras,

curandeiras, artistas, professoras, escritoras, místicas, professoras de EBD e catequistas...A humanidade inteira

aprendeu a falar no colo de mulheres antes de aprender a legislar sobre quem teria o direito de usar a palavra. Há

nisso uma espécie de contradição melancólica...E, humana, demasiado humana...

Virginia Woolf escreveu em Um Teto Todo seu (1929) que “Anônimo era uma mulher”. No estilo

elegante e pungente da escritora, a frase vai além da denúncia, carrega um luto histórico. Durante séculos, uma

quantidade incalculável de inteligência feminina sobreviveu sem assinatura ou sob pseudônimo masculino, ou

pior, teve sua produção usurpada por quem podia assiná-la. Mulheres pensaram, ensinaram, escreveram,

aconselharam, traduziram, sustentaram comunidades inteiras e, ainda assim, desapareceram nas margens oficiais

da autoria. Não porque lhes faltasse profundidade, verdade ou originalidade, mas porque lhes faltava permissão.

A história intelectual do mundo é também a história das vozes femininas que precisaram existir pelas frestas ou

atrás das portas...

No entanto, sobreviveram.

Talvez porque a voz humana possui essa dimensão peculiar de resistência. Ela insiste mesmo quando é

desacreditada e subestimada, talvez ainda mais quando o é.

A fala é uma das maneiras mais elementares de existência. Falar é dizer: “Eu existo e percebo”, “Eu

respondo à minha experiência”. Silenciar alguém não é apenas inibir seu som; é declarar irrelevante sua

experiência de vida e de mundo. Por esse motivo, a questão da voz feminina jamais pertenceu apenas ao âmbito

dos direitos sociais ou de representatividade institucional, mas diz respeito à própria qualidade moral da

capacidade de escuta humana. Simone Weil escreveu que “a atenção é a forma mais rara e pura de

generosidade”. Escutar realmente outra pessoa exige mais do que tolerância, demanda humildade. Em quem

ouve existe uma disposição interior de admitir que o outro é um seu semelhante e de reconhecer que a percepção

e a concepção de verdade, talvez não esteja concentrada apenas nas vozes historicamente autorizadas a

pronunciá-la. Qualquer comunidade que limita previamente quem tem o direito de interpretar a realidade e

expressar-se corre o risco de transformar tradição em eco.

É destacável que algumas das mulheres mais brilhantes da história tenham compreendido esse cenário

sem transformar sua inteligência em ressentimento. Hanna Arendt, cuja lucidez atravessou guerras, totalitarismos

e colapsos morais, observou que “para a excelência, a presença dos outros sempre é necessária”. Nenhum talento

ou vocação amadurece no silêncio. A inteligência humana é relacional. Pensamos e refletimos com os outros e

diante dos outros. Testamos e refinamos ideias e concepções através da linguagem, do confronto, do debate, do

diálogo, da escuta e da experiência humana compartilhada. Uma sociedade que restringe determinadas vozes não

apenas se põe a oprimir indivíduos; ela empobrece o próprio discernimento coletivo. Ainda mais se os motivos

para tal restrição não são a qualidade e a relevância do potencial de contribuição das vozes, mas meras diferenças

anatômicas.

Isso se torna ainda mais complexo e delicado quando pensamos na igreja.

O Cristianismo suporta em si mesmo muitos paradoxos interessantes. No que tange à condição feminina

isso é particularmente distinto. Em muitos aspectos, o Evangelho elevou de forma radical a dignidade da mulher

do mundo antigo. Mulheres seguiram Jesus de forma pública, até mesmo as estrangeiras. Mulheres financiaram

ministérios e foram recebidas como discípulas; mulheres conversaram com Cristo e o tocaram em praça pública,


diante de um ostensivo desconforto masculino e religioso. Maria de Betânia sentou-se aos pés do mestre na

postura reservada aos aprendizes homens da Lei. Priscila liderou igrejas e participou da instrução teológica de

Apolo. As filhas de Filipe profetizavam e inúmeras mulheres foram citadas por Paulo com reconhecimento e

gratidão. Já no VT vê-se Débora julgando o povo de Israel e liderando o exército em batalhas; Ester desafiando

autoridades e as denunciando ao rei Assuero; Abigail reprovando o comportamento néscio do marido e tomando

atitudes contrárias a ele para salvar sua casa; Hulda foi consultada por sacerdotes e reis...E talvez exista algo de

profundamente simbólico no fato de que a ressurreição tenha sido anunciada primeiro a mulheres em um

contexto em que seu testemunho sequer possuía algum valor jurídico. O Evangelho e seus paradoxos parecem

possuir a estranha tendência de surgir sempre nas margens e não nos centros do poder.

Com a perspicácia refinada que lhe é característica, Dorothy Sayers escreveu: “Talvez não seja

surpreendente que as mulheres tenham estado primeiro no berço e por último na Cruz. Elas jamais haviam

conhecido um homem como aquele Homem.” Essa frase carrega em si algo de verdadeiramente teológico. As

mulheres permaneceram junto a Cristo não porque fossem moralmente superiores aos homens, mas porque

conheceram nele uma forma inédita de dignidade humana. Jesus não as tratava como ornamento social, ameaça

moral ou intelecto secundário. Ele as via e as tratava como quem lida com pessoas inteiras, como criadas à

imagem e semelhança de Deus, como também o eram os homens.

Talvez seja exatamente isso que tantas instituições encontrem ainda imensa dificuldade em fazer;

entrave esse que fala mais sobre as instituições do que sobre as mulheres.

Há nessas estruturas humanas uma curiosa e censurável tendência histórica de aceitar a contribuição

feminina desde que ela permaneça suficientemente discreta. Mulheres podem aconselhar, desde que não pareçam

ensinar; podem testemunhar, desde que não pareçam pregar; podem servir, desde que não pareçam liderar;

podem falar, desde que sua fala não adquira peso público. Em alguns contextos religiosos, a presença feminina é

celebrada enquanto permanece doméstica (ou domesticada?), afetiva ou auxiliar (não auxiliadora). Quando se

torna teologicamente articulada, publicamente influente ou excessivamente denunciadora, começa a gerar

desconforto. Dorothy Sayers ironizou esse contexto ao dizer que “a abordagem da Igreja para com uma mulher

inteligente se assemelha à um tratador consciencioso de Zoológico”. A frase soa com incômodo porque abre uma

ferida real: o medo institucional da mulher que pensa sem pedir desculpas. Outra vez esse entrave fala mais

sobre as instituições do que sobre as mulheres.

Toda vez que uma comunidade teme excessivamente determinadas vozes, revela insegurança acerca da

própria verdade que afirma defender. John Stuart Mil, filósofo e teórico político inglês, figura central no

liberalismo clássico moderno, já dizia no século XIX em seu famoso livro On Liberty: “O mal peculiar de

silenciar a expressão de uma opinião é que isso rouba toda a raça humana” e “Aquele que conhece apenas o

próprio lado da questão conhece pouco até mesmo sobre ele.” Uma verdade que precisa controlar

excessivamente quem pode falar demonstra total insegurança sobre si mesma. O que Mill está dizendo não é que

toda opinião está correta, mas que mesmo opiniões equivocadas ajudam a verdade a se fortalecer porque obrigam

reflexão, refinamento e exame crítico. Uma comunidade que não entra em contato com nada fora de sua bolha

transforma verdades em repetições vazias. Vale destacar que Mill foi um grande defensor dos direitos

intelectuais e políticos das mulheres em sua época. Escreveu também The Subjection of Women, argumentando

que a inferiorização feminina não era natural, mas histórica e social.

A tradição reformada afirmou que nenhuma autoridade humana poderia substituir integralmente a

consciência diante da Palavra de Deus. Ao traduzir as Escrituras para línguas comuns e insistir na

responsabilidade espiritual do crente como indivíduo, a Reforma deslocou parcialmente a autoridade religiosa

das estruturas exclusivamente hierárquicas para o encontro entre texto sagrado e consciência humana. Há,

portanto, uma tensão inevitável quando comunidades herdeiras dessa tradição passam a delimitar previamente

quais consciências podem interpretar, ensinar ou falar publicamente. Se como disse Calvino em suas Institutas,

“Deus é o único Senhor da consciência”, estruturas humanas precisam ter cautela diante da tentativa de controlar

previamente formas legítimas de percepção e expressão. John Milton disse “Deixem que a Verdade e a falsidade

lutem; quem já viu a Verdade sair derrotada de um encontro livre e aberto?” argumentando que a verdade não

deve temer desconforto e que a censura infantiliza a consciência. Kuyper ao tratar da soberania das esferas, da

dignidade humana, da ação do Espírito na cultura e da pluralidade social, fortalece a ideia de que nenhuma

estrutura humana possui domínio absoluto sobra a manifestação legítima da Graça. “Toda verdade é verdade de

Deus”. (Agostinho de Hipona e, mais tarde, Arthur Holmes)

Há inúmeras situações em que a vida espiritual de uma comunidade reconhece intuitivamente

determinados dons antes mesmo que as estruturas institucionais saibam como acomodá-los. O NT parece ter

operado com uma fluidez muito maior entre dons e funções do que certos sistemas eclesiásticos posteriores,

visivelmente atrapalhados e engessados por dogmas complicados, improducentes e baseados em interpretações


bíblicas obscuras e jamais unânimes. Talvez parte do desconforto contemporâneo surja exatamente do encontro

entre dons espirituais explícitos e inegáveis e estruturas eclesiásticas construídas em períodos históricos muito

posteriores aos da igreja primitiva, muito mais influenciados por ideologias e filosofias seculares do que pela

verdade bíblica integral.

O NT apresenta o âmbito dos dons espirituais como de livre expressão soberana do Espírito Santo, que

“sopra onde quer”; eles não surgem como produto de um planejamento institucional humano, mas como Graça

distribuída ao Corpo, pelo livre desejo de Deus, para a edificação da comunidade cristã. Um exemplo ilustrativo

dessa ideia é Estevão, que muito embora tivesse o ofício de diácono, criado basicamente para atender

necessidades sociais para que os apóstolos pudessem estar livres para pregar a palavra, pregava ele mesmo

lindamente com unção e profundidade. Filipe idem. O que a igreja faz quando reconhece dons que suas

categorias acomodam com dificuldade? Quanto mais evidente o dom, mais difícil se torna justificar sua

limitação pública sem parecer que a instituição teme precisamente aquilo que afirma admirar. Talvez o problema

não esteja apenas em permitir que mulheres falem, mas em decidir o que acontece quando elas falam com

profundidade suficiente para que já não possam mais ser tratadas como exceção decorativa. Seria o Deus que não

faz exceção de pessoas menos zeloso com suas especificações doutrinárias que seus servos? Vale destacar que o

Espírito Santo raramente pareceu obedecer às fronteiras de nossos confortos históricos.

A famosa distinção entre dom e ofício procura preservar determinadas compreensões tradicionais de

autoridade eclesiástica. Contudo, ela produz também uma tensão prática difícil de se ignorar: reconhece-se a

existência de dons espirituais relevantes enquanto se limita sua incorporação estável à vida das igrejas. O

resultado é quase sempre uma colaboração extraoficial, voluntária e periférica precisamente em áreas onde há

carência crescente de formação, cuidado e responsabilidade comunitária. Nem vamos entrar aqui na verdade de

que todo obreiro é digno de seu salário, mas o fato é que o NT trata dons prioritariamente como instrumentos de

edificação do corpo; não como potencialidades mantidas em uma reserva simbólica. Em contextos de crescente

fragilidade comunitária e escassez de liderança comprometida, a restrição sistemática de vozes capazes parece

produzir não apenas tensão teológica, mas também empobrecimento da equipe pastoral.

A tradição cristã historicamente distinguiu entre núcleos centrais de fé e questões interpretativas

secundárias, ainda que importantes. A discussão sobre a participação pública feminina no ensino eclesiástico não

pertence ao mesmo nível doutrinário da encarnação, da ressurreição ou da centralidade da Cruz. Trata-se de um

debate hermenêutico complexo, sustentado sobre poucos textos específicos e interpretados de diferentes

maneiras ao longo do tempo e do contexto histórico e cultural dominante. Quanto mais periférica é uma questão

em relação ao centro do Evangelho, maior deveria ser a cautela diante das restrições que impliquem

empobrecimento da vida comunitária e limitação da atuação de dons frutíferos. Os dons deveriam gerar maior

compromisso com a igreja e não permanecer em regime informal de exceção tolerada.

O fato é - e a história ilustra isso muito bem - que nenhuma estrutura humana está imune à tentação de

transformar vocação em patrimônio. Instituições religiosas, como quaisquer outras, frequentemente confundem

preservação da verdade com preservação de suas próprias formas tradicionais de autoridade. Em sociedades nas

quais homens ocuparam durante séculos quase todos os espaços formais de interpretação, liderança e prestígio

intelectual, é natural que uma redistribuição simbólica da voz produza desconforto. Nem todo desconforto,

porém, nasce de uma convicção teológica pura; boa parte dele parece pertencer ao território mais ambíguo da

vaidade humana, do hábito histórico e do receio de perder centralidade e recursos. Afinal, o púlpito não é só um

espaço espiritual. Ao longo de toda a trajetória humana, autoridade religiosa quase nunca esteve separada de

prestígio social, estabilidade institucional e reconhecimento público. Por essa razão, debates aparentemente

teológicos carregam também dimensões humanas mais sutis: pertencimento, influência, identidade e preservação

de espaços historicamente consolidados. Diante disso cabe a pergunta: o silenciamento de mulheres dotadas por

Deus de dons específicos está à serviço da glória de quem? O caráter humano parece possuir uma inclinação

quase invisível de apresentar suas próprias zonas de conforto habituais como inevitabilidades naturais, verdades

absolutas e vozes divinas.

Em tempo, a sinceridade de uma convicção não elimina os interesses históricos e ideológicos que a

atravessam. Inúmeras vezes, confunde-se ordem natural com aquilo que apenas soa mais familiar. Qualquer

estrutura humana corre o risco de chamar de prudência e conservadorismo aquilo que, em níveis mais profundos,

se traduz apenas como medo de deslocamento.

Teresa d’Ávila, essa doutora da igreja cristã, compreendeu toda essa situação de maneira extraordinária.

Num contexto religioso absurdamente masculino, escreveu, ensinou, reformou conventos, aconselhou líderes

espirituais e produziu uma das obras místicas mais importantes da história cristã 1 . Encerrada entre muros de


conventos, Teresa construiu um dos maiores mapas da interioridade espiritual cristã. O castelo que lhe restou

habitar podia ser externamente pequeno, mas o que edificou intelectual e espiritualmente tornou-se imenso. Não

o fez por rebeldia performática, mas porque havia dentro dela uma convicção irresistível da presença de Deus,

“Cristo não tem corpo agora senão o teu”, escreveu. Há um desdobramento inevitável nessa declaração: se o

corpo de Cristo é formado por homens e mulheres, parece no mínimo estranho conceber que metade ele (talvez

mais da metade) desse corpo deva existir apenas como eco, nunca como voz.

É claro que existem debates legítimos sobre ordem litúrgica, interpretação bíblica e tradição

eclesiástica. Nenhuma comunidade eclesiástica respeitável existe sem um zelo sério para com a reflexão

teológica, existe, porém, um abismo entre discernir limites e desperdiçar inteligências.

Como já dito, confunde-se prudência com medo de crescer. Hanna Arendt afirmou que “o

revolucionário mais radical se tornará conservador no dia seguinte à revolução”; há uma sabedoria amarga nisso

- toda estrutura humana tende a proteger aquilo que acredita tê-la sustentado, mesmo quando já não consegue

distinguir entre fidelidade e simples hábito. Outra pergunta válida para reflexão: Afinal, que é que sustenta a

Igreja?

Talvez o problema mais profundo no que diz respeito a esse tema nem seja ideológico, teológico ou

jurídico; talvez seja, na verdade, imaginativo.

Ainda existe uma imensa dificuldade em imaginar mulheres como autoridades intelectuais ou espirituais

sem imediatamente se exigir ou esperar delas suavidade adicional, doçura compensatória ou justificativa moral

permanente. Homens brilhantes costumam receber admiração, mulheres brilhantes recebem avaliação

comportamental. A inteligência masculina é um atributo, a inteligência feminina é uma potencial perturbação.

No decorrer da história inúmeras mulheres tiveram que escolher entre lucidez e aceitação social.

Virginia Woolf escreveu: “Não há tranca, grade ou ferrolho que possa impor à liberdade da minha

mente”. A frase segue atual porque o controle institucional quase nunca começa pelo corpo, geralmente começa

pela linguagem. Toda tentativa de reduzir a participação feminina passa inevitavelmente pelo controle do

discurso: quem interpreta, quem ensina, quem nomeia a realidade. E nomear a realidade ainda é poder! Talvez

muitas mulheres tenham transformado literatura e demais artes, cuidado, ciência e espiritualidade em formas

alternativas de permanência histórica. Enquanto algumas portas seguiam fechadas, elas escreviam romances,

fundavam e dirigiam escolas, abriam e administravam hospitais, mantinham correspondências intelectuais,

ensinavam a Bíblia para crianças, sustentavam espiritual e emocionalmente comunidades inteiras. A voz

feminina encontrou formas de sempre sobreviver, mesmo quando oficialmente deslocadas para as margens.

Talvez por que essa voz tenha também sido criada por Deus?

Aqui no Brasil, poucas figuras ilustram com mais beleza tudo isso do que a psiquiatra Nise da Silveira.

Em um cenário dominado pelo conceito da violência psiquiátrica “cientificamente autorizada” e pela autoridade

masculina, Nise decidiu escutar, não os médicos, mas seus pacientes. Enquanto o mundo celebrava os

eletrochoques e os confinamentos desumanizantes, Nise insistiu na Arte, no afeto e na dignidade. “O afeto é

terapêutico”, dizia e nessa frase considerada simplória fez uma revolução inteira. Tudo o que o tratamento de

doentes mentais evoluiu nos últimos 30 anos, e foi muito, nasceu da escuta atenta de pessoas dispostas. Escutar

alguém com real interesse e abertura é reconhecer que a sua interioridade importa. Talvez toda tentativa de

silenciamento produza o exato oposto disso - a declaração implícita de que certas experiências humanas podem

ser descartadas sem prejuízo coletivo.

Uma humanidade sem a fala feminina se torna mais obtusa. Perde densidade relacional, perspicácia

original, complexidade moral e imaginação simbólica diversificada. Não à toa fomos criadas como auxílio de

Deus para o homem 2 , surgimos no texto bíblico não como um eco secundário do homem, mas como presença

capaz de lhe corresponder plenamente em humanidade. As mulheres não são criaturas moralmente superiores aos

homens, mas suas experiências humanas diferentes ampliam a percepção da realidade. Quando uma mulher

interpreta o mundo, ela não introduz apenas “opiniões femininas” no espaço público ou eclesiástico. Introduz sua

experiência humana. Introduz percepção. Introduz memória, nuance, imaginação moral e modos distintos de

reconhecer a dor, o tempo, o corpo, a fé e a esperança. Uma humanidade que escuta menos mulheres torna-se


1 O Castelo Interior - A imagem central do livro é lindíssima e trata da alma humana como um castelo composto

de muitas moradas pelas quais a pessoa caminha em direção à uma união plena com Deus.

2 ‘ezer kenegdô’ - Ezer é termo usado também no VT, várias vezes, para o próprio Deus. Designa: socorro forte,

auxílio indispensável, suporte vital, proteção, força complementar / Kenegdô - reciprocidade,

complementaridade, equivalência, a mulher é um auxílio que faz frente ao homem.


inevitavelmente mais estreita. Não mais ortodoxa, não mais racional, não mais forte. Apenas menor. A verdade

não florescerá em contextos onde metade (ou mais) dos seres humanos precise pedir licença para existir.

Isso vale para a Igreja também. Existe algo de espiritualmente perigoso em comunidades que se

acostumam a ouvir apenas determinados timbres de autoridade. O Corpo de Cristo não é uma repetição

monocromática de experiências idênticas. Ele é declaradamente de uma pluralidade reconciliada com Deus na

Cruz de Cristo (Ap 7.9). Quando mulheres interpretam a sua experiência de vida, de fé e sua esperança do porvir,

elas não estão introduzindo temas descartáveis ou secundários na vida cristã, estão compartilhando testemunho

humano honesto e tudo isso possui sim potencial teológico.

A pergunta correta, portanto, não é se as mulheres podem falar.

Isso a história já respondeu e continua respondendo: Mulheres falam nas cozinhas, nos desertos, nos

hospitais, nos conventos, nas guerras, nas cartas, na literatura, nas universidades, nos tribunais, nos espaços

políticos, nos campos missionários, nas salas de aula, nos consultórios, dentro das casas para as famílias, para

crianças saudáveis e febris, para adolescentes confusos, para jovens ansiosos, para adultos perplexos e idosos

entusiasmados, falam diante de túmulos recém-abertos, falam diante de Deus. Falaram mesmo quando ninguém

anotou seus nomes e quando uma civilização inteira fingiu que não falavam.

A pergunta real é: Seremos humildes o suficiente para ouvi-las?

Porque toda vez que uma mulher pensa com liberdade, escreve com coragem, ensina com

profundidade e anuncia a Verdade com beleza, a humanidade inteira se torna um pouco menos tacanha. E

se ela fala em nome de Deus, com o coração sincero diante dEle, a Cidade de Deus brilha com ainda mais

esplendor.

Quem sabe no futuro teremos retratos diferentes?


Sobre a autora: Profa. Dra. Danielli Morelli Pedrosa Botelho é paulistana, psicóloga clínica, professora na

área de Literatura e Letras, estudante diletante de Teologia e Filosofia, atualmente pesquisando a voz

feminina na história da Igreja, escritora no blog Psicopadas ( https://psicopadas.blogspot.com/2025/02/a-

garota-da-agulha-e-banalidade-do-mal.html ), filha e esposa de pastor presbiteriano.

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Referências complementares:

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