Alguns retratos antigos parecem explicar séculos inteiros. Em vários deles pode-se observar homens em
pé, mulheres sentadas. Eles discursam, se expressam, desbravam e esbravejam, pregam e influenciam. Elas
observam. Eles assinam seus nomes em atas, poemas, tratados, sermões e manifestos. Elas carregam crianças,
organizam a comunidade doméstica, copiam receitas, decoram orações, guardam cartas e guardam lutos. Ainda
assim, basta cavar um pouco mais fundo a superfície ordenada da história para perceber algo no mínimo
inusitado: As mulheres nunca estiveram realmente caladas. O mundo sempre foi atravessado por suas vozes e
por seus corpos e mesmo quando foram silenciadas, seu silêncio se fez ensurdecedor. Variou-se, é claro, no
decorrer dos tempos, a disposição coletiva para legitimar essa fala feminina, mas nada nunca foi capaz de mudar
seu timbre - de mulher, vivo e sobrevivente.
Uma das maiores ironias da civilização ocidental jaz no fato dos homens terem frequentemente
governado o espaço público, muitas vezes em detrimento das mulheres, enquanto eram emocional, intelectual e
espiritualmente formados por elas. Mães, amas, irmãs, avós, tias, primas, amigas, terapeutas, enfermeiras,
curandeiras, artistas, professoras, escritoras, místicas, professoras de EBD e catequistas...A humanidade inteira
aprendeu a falar no colo de mulheres antes de aprender a legislar sobre quem teria o direito de usar a palavra. Há
nisso uma espécie de contradição melancólica...E, humana, demasiado humana...
Virginia Woolf escreveu em Um Teto Todo seu (1929) que “Anônimo era uma mulher”. No estilo
elegante e pungente da escritora, a frase vai além da denúncia, carrega um luto histórico. Durante séculos, uma
quantidade incalculável de inteligência feminina sobreviveu sem assinatura ou sob pseudônimo masculino, ou
pior, teve sua produção usurpada por quem podia assiná-la. Mulheres pensaram, ensinaram, escreveram,
aconselharam, traduziram, sustentaram comunidades inteiras e, ainda assim, desapareceram nas margens oficiais
da autoria. Não porque lhes faltasse profundidade, verdade ou originalidade, mas porque lhes faltava permissão.
A história intelectual do mundo é também a história das vozes femininas que precisaram existir pelas frestas ou
atrás das portas...
No entanto, sobreviveram.
Talvez porque a voz humana possui essa dimensão peculiar de resistência. Ela insiste mesmo quando é
desacreditada e subestimada, talvez ainda mais quando o é.
A fala é uma das maneiras mais elementares de existência. Falar é dizer: “Eu existo e percebo”, “Eu
respondo à minha experiência”. Silenciar alguém não é apenas inibir seu som; é declarar irrelevante sua
experiência de vida e de mundo. Por esse motivo, a questão da voz feminina jamais pertenceu apenas ao âmbito
dos direitos sociais ou de representatividade institucional, mas diz respeito à própria qualidade moral da
capacidade de escuta humana. Simone Weil escreveu que “a atenção é a forma mais rara e pura de
generosidade”. Escutar realmente outra pessoa exige mais do que tolerância, demanda humildade. Em quem
ouve existe uma disposição interior de admitir que o outro é um seu semelhante e de reconhecer que a percepção
e a concepção de verdade, talvez não esteja concentrada apenas nas vozes historicamente autorizadas a
pronunciá-la. Qualquer comunidade que limita previamente quem tem o direito de interpretar a realidade e
expressar-se corre o risco de transformar tradição em eco.
É destacável que algumas das mulheres mais brilhantes da história tenham compreendido esse cenário
sem transformar sua inteligência em ressentimento. Hanna Arendt, cuja lucidez atravessou guerras, totalitarismos
e colapsos morais, observou que “para a excelência, a presença dos outros sempre é necessária”. Nenhum talento
ou vocação amadurece no silêncio. A inteligência humana é relacional. Pensamos e refletimos com os outros e
diante dos outros. Testamos e refinamos ideias e concepções através da linguagem, do confronto, do debate, do
diálogo, da escuta e da experiência humana compartilhada. Uma sociedade que restringe determinadas vozes não
apenas se põe a oprimir indivíduos; ela empobrece o próprio discernimento coletivo. Ainda mais se os motivos
para tal restrição não são a qualidade e a relevância do potencial de contribuição das vozes, mas meras diferenças
anatômicas.
Isso se torna ainda mais complexo e delicado quando pensamos na igreja.
O Cristianismo suporta em si mesmo muitos paradoxos interessantes. No que tange à condição feminina
isso é particularmente distinto. Em muitos aspectos, o Evangelho elevou de forma radical a dignidade da mulher
do mundo antigo. Mulheres seguiram Jesus de forma pública, até mesmo as estrangeiras. Mulheres financiaram
ministérios e foram recebidas como discípulas; mulheres conversaram com Cristo e o tocaram em praça pública,
diante de um ostensivo desconforto masculino e religioso. Maria de Betânia sentou-se aos pés do mestre na
postura reservada aos aprendizes homens da Lei. Priscila liderou igrejas e participou da instrução teológica de
Apolo. As filhas de Filipe profetizavam e inúmeras mulheres foram citadas por Paulo com reconhecimento e
gratidão. Já no VT vê-se Débora julgando o povo de Israel e liderando o exército em batalhas; Ester desafiando
autoridades e as denunciando ao rei Assuero; Abigail reprovando o comportamento néscio do marido e tomando
atitudes contrárias a ele para salvar sua casa; Hulda foi consultada por sacerdotes e reis...E talvez exista algo de
profundamente simbólico no fato de que a ressurreição tenha sido anunciada primeiro a mulheres em um
contexto em que seu testemunho sequer possuía algum valor jurídico. O Evangelho e seus paradoxos parecem
possuir a estranha tendência de surgir sempre nas margens e não nos centros do poder.
Com a perspicácia refinada que lhe é característica, Dorothy Sayers escreveu: “Talvez não seja
surpreendente que as mulheres tenham estado primeiro no berço e por último na Cruz. Elas jamais haviam
conhecido um homem como aquele Homem.” Essa frase carrega em si algo de verdadeiramente teológico. As
mulheres permaneceram junto a Cristo não porque fossem moralmente superiores aos homens, mas porque
conheceram nele uma forma inédita de dignidade humana. Jesus não as tratava como ornamento social, ameaça
moral ou intelecto secundário. Ele as via e as tratava como quem lida com pessoas inteiras, como criadas à
imagem e semelhança de Deus, como também o eram os homens.
Talvez seja exatamente isso que tantas instituições encontrem ainda imensa dificuldade em fazer;
entrave esse que fala mais sobre as instituições do que sobre as mulheres.
Há nessas estruturas humanas uma curiosa e censurável tendência histórica de aceitar a contribuição
feminina desde que ela permaneça suficientemente discreta. Mulheres podem aconselhar, desde que não pareçam
ensinar; podem testemunhar, desde que não pareçam pregar; podem servir, desde que não pareçam liderar;
podem falar, desde que sua fala não adquira peso público. Em alguns contextos religiosos, a presença feminina é
celebrada enquanto permanece doméstica (ou domesticada?), afetiva ou auxiliar (não auxiliadora). Quando se
torna teologicamente articulada, publicamente influente ou excessivamente denunciadora, começa a gerar
desconforto. Dorothy Sayers ironizou esse contexto ao dizer que “a abordagem da Igreja para com uma mulher
inteligente se assemelha à um tratador consciencioso de Zoológico”. A frase soa com incômodo porque abre uma
ferida real: o medo institucional da mulher que pensa sem pedir desculpas. Outra vez esse entrave fala mais
sobre as instituições do que sobre as mulheres.
Toda vez que uma comunidade teme excessivamente determinadas vozes, revela insegurança acerca da
própria verdade que afirma defender. John Stuart Mil, filósofo e teórico político inglês, figura central no
liberalismo clássico moderno, já dizia no século XIX em seu famoso livro On Liberty: “O mal peculiar de
silenciar a expressão de uma opinião é que isso rouba toda a raça humana” e “Aquele que conhece apenas o
próprio lado da questão conhece pouco até mesmo sobre ele.” Uma verdade que precisa controlar
excessivamente quem pode falar demonstra total insegurança sobre si mesma. O que Mill está dizendo não é que
toda opinião está correta, mas que mesmo opiniões equivocadas ajudam a verdade a se fortalecer porque obrigam
reflexão, refinamento e exame crítico. Uma comunidade que não entra em contato com nada fora de sua bolha
transforma verdades em repetições vazias. Vale destacar que Mill foi um grande defensor dos direitos
intelectuais e políticos das mulheres em sua época. Escreveu também The Subjection of Women, argumentando
que a inferiorização feminina não era natural, mas histórica e social.
A tradição reformada afirmou que nenhuma autoridade humana poderia substituir integralmente a
consciência diante da Palavra de Deus. Ao traduzir as Escrituras para línguas comuns e insistir na
responsabilidade espiritual do crente como indivíduo, a Reforma deslocou parcialmente a autoridade religiosa
das estruturas exclusivamente hierárquicas para o encontro entre texto sagrado e consciência humana. Há,
portanto, uma tensão inevitável quando comunidades herdeiras dessa tradição passam a delimitar previamente
quais consciências podem interpretar, ensinar ou falar publicamente. Se como disse Calvino em suas Institutas,
“Deus é o único Senhor da consciência”, estruturas humanas precisam ter cautela diante da tentativa de controlar
previamente formas legítimas de percepção e expressão. John Milton disse “Deixem que a Verdade e a falsidade
lutem; quem já viu a Verdade sair derrotada de um encontro livre e aberto?” argumentando que a verdade não
deve temer desconforto e que a censura infantiliza a consciência. Kuyper ao tratar da soberania das esferas, da
dignidade humana, da ação do Espírito na cultura e da pluralidade social, fortalece a ideia de que nenhuma
estrutura humana possui domínio absoluto sobra a manifestação legítima da Graça. “Toda verdade é verdade de
Deus”. (Agostinho de Hipona e, mais tarde, Arthur Holmes)
Há inúmeras situações em que a vida espiritual de uma comunidade reconhece intuitivamente
determinados dons antes mesmo que as estruturas institucionais saibam como acomodá-los. O NT parece ter
operado com uma fluidez muito maior entre dons e funções do que certos sistemas eclesiásticos posteriores,
visivelmente atrapalhados e engessados por dogmas complicados, improducentes e baseados em interpretações
bíblicas obscuras e jamais unânimes. Talvez parte do desconforto contemporâneo surja exatamente do encontro
entre dons espirituais explícitos e inegáveis e estruturas eclesiásticas construídas em períodos históricos muito
posteriores aos da igreja primitiva, muito mais influenciados por ideologias e filosofias seculares do que pela
verdade bíblica integral.
O NT apresenta o âmbito dos dons espirituais como de livre expressão soberana do Espírito Santo, que
“sopra onde quer”; eles não surgem como produto de um planejamento institucional humano, mas como Graça
distribuída ao Corpo, pelo livre desejo de Deus, para a edificação da comunidade cristã. Um exemplo ilustrativo
dessa ideia é Estevão, que muito embora tivesse o ofício de diácono, criado basicamente para atender
necessidades sociais para que os apóstolos pudessem estar livres para pregar a palavra, pregava ele mesmo
lindamente com unção e profundidade. Filipe idem. O que a igreja faz quando reconhece dons que suas
categorias acomodam com dificuldade? Quanto mais evidente o dom, mais difícil se torna justificar sua
limitação pública sem parecer que a instituição teme precisamente aquilo que afirma admirar. Talvez o problema
não esteja apenas em permitir que mulheres falem, mas em decidir o que acontece quando elas falam com
profundidade suficiente para que já não possam mais ser tratadas como exceção decorativa. Seria o Deus que não
faz exceção de pessoas menos zeloso com suas especificações doutrinárias que seus servos? Vale destacar que o
Espírito Santo raramente pareceu obedecer às fronteiras de nossos confortos históricos.
A famosa distinção entre dom e ofício procura preservar determinadas compreensões tradicionais de
autoridade eclesiástica. Contudo, ela produz também uma tensão prática difícil de se ignorar: reconhece-se a
existência de dons espirituais relevantes enquanto se limita sua incorporação estável à vida das igrejas. O
resultado é quase sempre uma colaboração extraoficial, voluntária e periférica precisamente em áreas onde há
carência crescente de formação, cuidado e responsabilidade comunitária. Nem vamos entrar aqui na verdade de
que todo obreiro é digno de seu salário, mas o fato é que o NT trata dons prioritariamente como instrumentos de
edificação do corpo; não como potencialidades mantidas em uma reserva simbólica. Em contextos de crescente
fragilidade comunitária e escassez de liderança comprometida, a restrição sistemática de vozes capazes parece
produzir não apenas tensão teológica, mas também empobrecimento da equipe pastoral.
A tradição cristã historicamente distinguiu entre núcleos centrais de fé e questões interpretativas
secundárias, ainda que importantes. A discussão sobre a participação pública feminina no ensino eclesiástico não
pertence ao mesmo nível doutrinário da encarnação, da ressurreição ou da centralidade da Cruz. Trata-se de um
debate hermenêutico complexo, sustentado sobre poucos textos específicos e interpretados de diferentes
maneiras ao longo do tempo e do contexto histórico e cultural dominante. Quanto mais periférica é uma questão
em relação ao centro do Evangelho, maior deveria ser a cautela diante das restrições que impliquem
empobrecimento da vida comunitária e limitação da atuação de dons frutíferos. Os dons deveriam gerar maior
compromisso com a igreja e não permanecer em regime informal de exceção tolerada.
O fato é - e a história ilustra isso muito bem - que nenhuma estrutura humana está imune à tentação de
transformar vocação em patrimônio. Instituições religiosas, como quaisquer outras, frequentemente confundem
preservação da verdade com preservação de suas próprias formas tradicionais de autoridade. Em sociedades nas
quais homens ocuparam durante séculos quase todos os espaços formais de interpretação, liderança e prestígio
intelectual, é natural que uma redistribuição simbólica da voz produza desconforto. Nem todo desconforto,
porém, nasce de uma convicção teológica pura; boa parte dele parece pertencer ao território mais ambíguo da
vaidade humana, do hábito histórico e do receio de perder centralidade e recursos. Afinal, o púlpito não é só um
espaço espiritual. Ao longo de toda a trajetória humana, autoridade religiosa quase nunca esteve separada de
prestígio social, estabilidade institucional e reconhecimento público. Por essa razão, debates aparentemente
teológicos carregam também dimensões humanas mais sutis: pertencimento, influência, identidade e preservação
de espaços historicamente consolidados. Diante disso cabe a pergunta: o silenciamento de mulheres dotadas por
Deus de dons específicos está à serviço da glória de quem? O caráter humano parece possuir uma inclinação
quase invisível de apresentar suas próprias zonas de conforto habituais como inevitabilidades naturais, verdades
absolutas e vozes divinas.
Em tempo, a sinceridade de uma convicção não elimina os interesses históricos e ideológicos que a
atravessam. Inúmeras vezes, confunde-se ordem natural com aquilo que apenas soa mais familiar. Qualquer
estrutura humana corre o risco de chamar de prudência e conservadorismo aquilo que, em níveis mais profundos,
se traduz apenas como medo de deslocamento.
Teresa d’Ávila, essa doutora da igreja cristã, compreendeu toda essa situação de maneira extraordinária.
Num contexto religioso absurdamente masculino, escreveu, ensinou, reformou conventos, aconselhou líderes
espirituais e produziu uma das obras místicas mais importantes da história cristã 1 . Encerrada entre muros de
conventos, Teresa construiu um dos maiores mapas da interioridade espiritual cristã. O castelo que lhe restou
habitar podia ser externamente pequeno, mas o que edificou intelectual e espiritualmente tornou-se imenso. Não
o fez por rebeldia performática, mas porque havia dentro dela uma convicção irresistível da presença de Deus,
“Cristo não tem corpo agora senão o teu”, escreveu. Há um desdobramento inevitável nessa declaração: se o
corpo de Cristo é formado por homens e mulheres, parece no mínimo estranho conceber que metade ele (talvez
mais da metade) desse corpo deva existir apenas como eco, nunca como voz.
É claro que existem debates legítimos sobre ordem litúrgica, interpretação bíblica e tradição
eclesiástica. Nenhuma comunidade eclesiástica respeitável existe sem um zelo sério para com a reflexão
teológica, existe, porém, um abismo entre discernir limites e desperdiçar inteligências.
Como já dito, confunde-se prudência com medo de crescer. Hanna Arendt afirmou que “o
revolucionário mais radical se tornará conservador no dia seguinte à revolução”; há uma sabedoria amarga nisso
- toda estrutura humana tende a proteger aquilo que acredita tê-la sustentado, mesmo quando já não consegue
distinguir entre fidelidade e simples hábito. Outra pergunta válida para reflexão: Afinal, que é que sustenta a
Igreja?
Talvez o problema mais profundo no que diz respeito a esse tema nem seja ideológico, teológico ou
jurídico; talvez seja, na verdade, imaginativo.
Ainda existe uma imensa dificuldade em imaginar mulheres como autoridades intelectuais ou espirituais
sem imediatamente se exigir ou esperar delas suavidade adicional, doçura compensatória ou justificativa moral
permanente. Homens brilhantes costumam receber admiração, mulheres brilhantes recebem avaliação
comportamental. A inteligência masculina é um atributo, a inteligência feminina é uma potencial perturbação.
No decorrer da história inúmeras mulheres tiveram que escolher entre lucidez e aceitação social.
Virginia Woolf escreveu: “Não há tranca, grade ou ferrolho que possa impor à liberdade da minha
mente”. A frase segue atual porque o controle institucional quase nunca começa pelo corpo, geralmente começa
pela linguagem. Toda tentativa de reduzir a participação feminina passa inevitavelmente pelo controle do
discurso: quem interpreta, quem ensina, quem nomeia a realidade. E nomear a realidade ainda é poder! Talvez
muitas mulheres tenham transformado literatura e demais artes, cuidado, ciência e espiritualidade em formas
alternativas de permanência histórica. Enquanto algumas portas seguiam fechadas, elas escreviam romances,
fundavam e dirigiam escolas, abriam e administravam hospitais, mantinham correspondências intelectuais,
ensinavam a Bíblia para crianças, sustentavam espiritual e emocionalmente comunidades inteiras. A voz
feminina encontrou formas de sempre sobreviver, mesmo quando oficialmente deslocadas para as margens.
Talvez por que essa voz tenha também sido criada por Deus?
Aqui no Brasil, poucas figuras ilustram com mais beleza tudo isso do que a psiquiatra Nise da Silveira.
Em um cenário dominado pelo conceito da violência psiquiátrica “cientificamente autorizada” e pela autoridade
masculina, Nise decidiu escutar, não os médicos, mas seus pacientes. Enquanto o mundo celebrava os
eletrochoques e os confinamentos desumanizantes, Nise insistiu na Arte, no afeto e na dignidade. “O afeto é
terapêutico”, dizia e nessa frase considerada simplória fez uma revolução inteira. Tudo o que o tratamento de
doentes mentais evoluiu nos últimos 30 anos, e foi muito, nasceu da escuta atenta de pessoas dispostas. Escutar
alguém com real interesse e abertura é reconhecer que a sua interioridade importa. Talvez toda tentativa de
silenciamento produza o exato oposto disso - a declaração implícita de que certas experiências humanas podem
ser descartadas sem prejuízo coletivo.
Uma humanidade sem a fala feminina se torna mais obtusa. Perde densidade relacional, perspicácia
original, complexidade moral e imaginação simbólica diversificada. Não à toa fomos criadas como auxílio de
Deus para o homem 2 , surgimos no texto bíblico não como um eco secundário do homem, mas como presença
capaz de lhe corresponder plenamente em humanidade. As mulheres não são criaturas moralmente superiores aos
homens, mas suas experiências humanas diferentes ampliam a percepção da realidade. Quando uma mulher
interpreta o mundo, ela não introduz apenas “opiniões femininas” no espaço público ou eclesiástico. Introduz sua
experiência humana. Introduz percepção. Introduz memória, nuance, imaginação moral e modos distintos de
reconhecer a dor, o tempo, o corpo, a fé e a esperança. Uma humanidade que escuta menos mulheres torna-se
1 O Castelo Interior - A imagem central do livro é lindíssima e trata da alma humana como um castelo composto
de muitas moradas pelas quais a pessoa caminha em direção à uma união plena com Deus.
2 ‘ezer kenegdô’ - Ezer é termo usado também no VT, várias vezes, para o próprio Deus. Designa: socorro forte,
auxílio indispensável, suporte vital, proteção, força complementar / Kenegdô - reciprocidade,
complementaridade, equivalência, a mulher é um auxílio que faz frente ao homem.
inevitavelmente mais estreita. Não mais ortodoxa, não mais racional, não mais forte. Apenas menor. A verdade
não florescerá em contextos onde metade (ou mais) dos seres humanos precise pedir licença para existir.
Isso vale para a Igreja também. Existe algo de espiritualmente perigoso em comunidades que se
acostumam a ouvir apenas determinados timbres de autoridade. O Corpo de Cristo não é uma repetição
monocromática de experiências idênticas. Ele é declaradamente de uma pluralidade reconciliada com Deus na
Cruz de Cristo (Ap 7.9). Quando mulheres interpretam a sua experiência de vida, de fé e sua esperança do porvir,
elas não estão introduzindo temas descartáveis ou secundários na vida cristã, estão compartilhando testemunho
humano honesto e tudo isso possui sim potencial teológico.
A pergunta correta, portanto, não é se as mulheres podem falar.
Isso a história já respondeu e continua respondendo: Mulheres falam nas cozinhas, nos desertos, nos
hospitais, nos conventos, nas guerras, nas cartas, na literatura, nas universidades, nos tribunais, nos espaços
políticos, nos campos missionários, nas salas de aula, nos consultórios, dentro das casas para as famílias, para
crianças saudáveis e febris, para adolescentes confusos, para jovens ansiosos, para adultos perplexos e idosos
entusiasmados, falam diante de túmulos recém-abertos, falam diante de Deus. Falaram mesmo quando ninguém
anotou seus nomes e quando uma civilização inteira fingiu que não falavam.
A pergunta real é: Seremos humildes o suficiente para ouvi-las?
Porque toda vez que uma mulher pensa com liberdade, escreve com coragem, ensina com
profundidade e anuncia a Verdade com beleza, a humanidade inteira se torna um pouco menos tacanha. E
se ela fala em nome de Deus, com o coração sincero diante dEle, a Cidade de Deus brilha com ainda mais
esplendor.
Quem sabe no futuro teremos retratos diferentes?
Sobre a autora: Profa. Dra. Danielli Morelli Pedrosa Botelho é paulistana, psicóloga clínica, professora na
área de Literatura e Letras, estudante diletante de Teologia e Filosofia, atualmente pesquisando a voz
feminina na história da Igreja, escritora no blog Psicopadas ( https://psicopadas.blogspot.com/2025/02/a-
garota-da-agulha-e-banalidade-do-mal.html ), filha e esposa de pastor presbiteriano.
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